Bolsa Família vira munição eleitoral na reta final: após reajuste, Lula antecipa pagamentos para antes do segundo turno

Benefício ficou mais de três anos sem correção pela inflação, mas subiu 15% às vésperas da eleição. Governo também alterou calendário para que todas as famílias recebam antes da votação de domingo (25).

A menos de uma semana do segundo turno das eleições presidenciais, o Bolsa Família entrou no centro da disputa política. Depois de anunciar um reajuste de 15,04% no benefício, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu antecipar os pagamentos de outubro, garantindo que todos os beneficiários recebam o dinheiro até quarta-feira (21), quatro dias antes da votação.

Com o aumento, o valor mínimo do programa passou de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio estimado subiu de R$ 675 para R$ 777. A atualização foi anunciada em setembro, apenas 17 dias antes do primeiro turno, e representa a primeira recomposição pela inflação desde março de 2023.


Por que o reajuste veio justamente agora?

A pergunta ganhou força porque o benefício permaneceu mais de três anos sem atualização pela inflação. Segundo o governo, o aumento apenas recompõe a perda do poder de compra das famílias, utilizando a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

Entretanto, uma reportagem da Folha de S.Paulo revelou que os documentos técnicos para o reajuste foram preparados sob sigilo e fora dos sistemas eletrônicos convencionais. As estimativas apontam impacto de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e de R$ 22,7 bilhões em 2027.


Calendário foi antecipado para antes da eleição

O calendário original previa pagamentos escalonados até 30 de outubro, cinco dias depois da votação. Com a mudança, os beneficiários com NIS final 1 receberam na segunda-feira (19), os de final 2 recebem nesta terça-feira (20), e os demais terão os valores liberados na quarta-feira (21).

O Ministério do Desenvolvimento Social justifica a antecipação como uma medida preventiva para proteger famílias vulneráveis dos possíveis efeitos do fenômeno climático super El Niño. Segundo a pasta, o calendário unificado também será mantido em novembro e dezembro.


Oposição questiona uso eleitoral do benefício

A proximidade das medidas com a eleição provocou reação política. Nesta terça-feira (20), o partido Novo apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral um pedido de cassação da chapa Lula–Alckmin, alegando possível abuso de poder político relacionado a benefícios anunciados durante o período eleitoral.

O partido incluiu o reajuste do Bolsa Família e a antecipação dos pagamentos entre os fatos questionados. O pedido, entretanto, representa uma acusação da legenda e não uma decisão judicial que reconheça irregularidade.


O governo sustenta que o reajuste é uma reposição necessária da inflação e que a antecipação atende a razões climáticas. Já os críticos questionam por que a correção não ocorreu anteriormente e por que o calendário foi modificado justamente na reta final da disputa presidencial.

O benefício é um direito das famílias que atendem aos critérios do programa, independentemente de quem esteja no governo. Mas a coincidência entre reajuste, antecipação e calendário eleitoral exige transparência sobre os motivos e os custos dessas decisões.

Afinal, se a inflação precisava ser recomposta desde 2023, por que isso aconteceu somente agora? E, se a antecipação responde a uma emergência climática, quais critérios técnicos justificaram a mudança nacional?

São questões que merecem respostas objetivas, especialmente quando decisões administrativas e interesses eleitorais se encontram a poucos dias das urnas.

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