Caso envolvendo supostas postagens atribuídas a uma deputada eleita reacende uma discussão simples: discriminação não se torna aceitável quando muda de direção
Quando se fala em racismo e preconceito, muita gente automaticamente imagina ataques contra pessoas negras. E há razões históricas e sociais muito concretas para essa associação.
Mas existe um princípio que não deveria depender da cor de quem fala nem da cor de quem recebe o ataque: ninguém deve ser tratado com desprezo por causa da raça ou da cor da pele.
Nos últimos dias, voltaram a circular nas redes sociais supostas postagens antigas atribuídas à deputada federal eleita Ana Elisa Santos Silva, do PT de Minas Gerais, entre elas uma mensagem com a expressão “odeio branco”. A autenticidade desse material é contestada pela própria parlamentar, que afirma se tratar de conteúdo falso e informou ter recorrido à Justiça Eleitoral contra a divulgação. Portanto, neste momento, o correto é tratar os prints como postagens atribuídas a ela, e não como autoria comprovada.
O episódio, independentemente de quem esteja com a razão sobre a autenticidade das imagens, expõe uma discussão maior.
Se a frase fosse “odeio negro”, a reação seria imediata e correta: seria vista como uma manifestação absolutamente repugnante.
Trocar apenas a palavra “negro” por “branco” não transforma uma frase de ódio em algo bonito, inteligente ou aceitável.
A legislação brasileira pune discriminação e preconceito relacionados a raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. A própria Constituição determina que todos são iguais perante a lei e estabelece o repúdio ao racismo.
Isso não significa ignorar que o racismo contra negros possui uma dimensão histórica, estrutural e social profundamente diferente no Brasil. Significa apenas reconhecer que combater uma forma de preconceito não exige aceitar outra.
É perfeitamente possível defender políticas contra o racismo, reconhecer desigualdades históricas e, ao mesmo tempo, rejeitar qualquer discurso que reduza uma pessoa à cor da pele.
A coerência deveria ser simples:
se é errado quando vem de um lado, continua errado quando vem do outro.
O combate ao preconceito perde força quando algumas formas de intolerância são condenadas e outras são relativizadas dependendo de quem as pratica.
No caso das publicações que circulam agora, caberá às autoridades e às plataformas esclarecer se o material é verdadeiro ou adulterado.
Mas a discussão que ele provoca pode ser feita sem esperar essa conclusão:
ódio racial não deveria ter lado político, cor preferida nem justificativa conveniente.
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