Você sabia que o 7 de setembro ocorreu em 29 de agosto?

Cena de Dom Pedro I erguendo a espada sobre o cavalo é uma representação feita 66 anos depois; rompimento com Portugal só foi reconhecido oficialmente em 1825, após conflitos e um acordo que envolveu 2 milhões de libras

O 7 de Setembro é celebrado como o dia da Independência do Brasil. Mas a história real é bem menos cinematográfica do que a imagem que aprendemos na escola.

A famosa cena de Dom Pedro I sobre um cavalo, cercado por soldados, espada erguida e proclamando “Independência ou Morte!”, que se tornou praticamente uma fotografia do nascimento do Brasil, é, na verdade, uma representação artística produzida décadas depois.

A tela “Independência ou Morte!”, de Pedro Américo, foi concluída em 1888 — 66 anos depois do episódio do Ipiranga. O próprio Museu do Ipiranga explica que o pintor pesquisou relatos sobre o acontecimento, mas também fez escolhas artísticas para produzir uma cena monumental e adequada à imagem que se pretendia construir sobre a Independência.

E aí começam algumas das histórias mais curiosas do 7 de Setembro.

Dom Pedro estava com diarréia?

Há evidências de que sim. Mas é preciso tomar cuidado com a versão de que ele “deu o grito porque estava com diarreia”.

Relatos históricos indicam que Dom Pedro sofreu um incômodo gástrico durante a viagem de volta de Santos para São Paulo. Segundo relatos reproduzidos por historiadores, ele precisou fazer várias paradas durante o percurso. Uma versão conhecida afirma que o problema teria sido uma diarreia provocada por algo que comeu em Santos.

Mais interessante ainda: em um texto escrito pelo próprio Pedro Américo, ao explicar a pintura, o artista reconheceu que Dom Pedro sofria naquele dia de um “incômodo gástrico”. O pintor, porém, considerou que representar o príncipe com os sinais daquele desconforto seria inadequado para a imagem heroica que pretendia construir.

Ou seja: a dor de barriga não é simplesmente uma invenção moderna, mas também seria exagero afirmar que o famoso grito aconteceu porque Dom Pedro estava desesperado para encontrar um banheiro.

E ele estava montado numa mula?

A cena de Pedro Américo mostra Dom Pedro montado em um imponente cavalo. Há relatos históricos, porém, de que ele estava montado em uma mula, e não naquele cavalo majestoso que aparece na pintura.

E há outra diferença importante: não existia aquela formação de soldados em semicírculo ao redor do príncipe, como aparece na tela.

O próprio Museu do Ipiranga trata a obra como uma construção artística do acontecimento, e não como uma fotografia histórica.

Então o “Independência ou Morte!” aconteceu?

Há relatos de que sim.

O padre Belchior Pinheiro, integrante da comitiva, descreveu Dom Pedro recebendo as correspondências vindas do Rio de Janeiro, reagindo com irritação e, posteriormente, proclamando a separação de Portugal.

O Arquivo e órgãos públicos registram versões desse relato nas quais aparece o famoso “Independência ou Morte!”.

Mas o momento não foi exatamente aquela cena monumental criada por Pedro Américo.

Na narrativa do padre Belchior, por exemplo, Dom Pedro desceu do animal, recebeu as cartas, amassou os papéis e os jogou no chão antes de tomar a decisão.

O Brasil ficou independente naquele dia?

Politicamente, o 7 de Setembro foi o grande marco. Mas a independência não terminou ali.

Depois do grito do Ipiranga, ainda houve conflitos militares e resistência portuguesa em várias regiões.

Na Bahia, por exemplo, as tropas portuguesas só foram definitivamente expulsas em 2 de julho de 1823. No Maranhão, a adesão ao Império ocorreu em 28 de julho de 1823. Também houve conflitos no Pará, Piauí e outras regiões.

Por isso, historiadores tratam a Independência como um processo, e não como um acontecimento que terminou em uma única tarde de setembro.

E aqui é importante corrigir uma ideia bastante difundida: não foi durante o Segundo Reinado de Dom Pedro II que o Brasil finalmente se tornou independente.

Dom Pedro II só assumiu o trono em 1840. O reconhecimento formal da independência por Portugal aconteceu em 1825, ainda durante o reinado de Dom Pedro I.

E o Brasil realmente pagou para ser reconhecido como independente?

Sim. E essa é talvez uma das partes mais curiosas da história.

Em 29 de agosto de 1825, Brasil e Portugal assinaram o Tratado de Paz, Amizade e Aliança, pelo qual Portugal reconheceu oficialmente a independência brasileira.

Como parte do acordo, o Brasil assumiu o compromisso de pagar 2 milhões de libras esterlinas a Portugal.

O detalhe ainda mais curioso é que o Brasil não tinha aquele dinheiro disponível.

Parte do compromisso foi resolvida com a assunção, pelo Tesouro brasileiro, de uma dívida que Portugal havia contraído anteriormente em Londres. Em outras palavras, o novo país independente acabou assumindo uma dívida relacionada ao próprio processo de guerra contra sua independência.

A operação ajudou a colocar o Brasil no caminho de sua primeira grande dívida externa e aumentou a dependência financeira em relação ao capital britânico.

Então a independência foi uma compra?

Não exatamente.

É errado dizer simplesmente que “o Brasil comprou sua independência”, porque houve uma ruptura política, mobilização militar, conflitos e um processo de construção do novo Estado.

Mas também é errado imaginar que bastou Dom Pedro levantar a espada e tudo acabou naquele instante.

O 7 de Setembro foi o símbolo. A independência foi um processo. E o reconhecimento internacional teve um preço.

E talvez essa seja a parte mais interessante de lembrar neste 7 de Setembro de 2026:

A imagem que conhecemos é perfeita demais.

O príncipe montado em um cavalo imponente.
A espada levantada.
Os soldados perfilados.
Todos olhando para ele.

A história real tinha lama, doença, conflitos, negociações, interesses políticos, guerras e dívidas.

E, ainda assim, foi daquele processo cheio de contradições que nasceu o Brasil independente.

Porque história não é apenas aquilo que está no quadro. É também aquilo que aconteceu por trás dele.

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