Em Cáceres, novos casos registrados justamente durante o mês de prevenção reacendem uma discussão incômoda: estamos falando sobre o problema da maneira correta?
Setembro chega e, todos os anos, Cáceres fica amarela.
São campanhas, palestras, cartazes, vídeos, postagens e mensagens falando sobre prevenção ao suicídio.
Mas existe uma pergunta que quase ninguém gosta de fazer:
será que estamos falando sobre isso da maneira certa?
Neste mês de setembro, pelo menos dois casos de suicídio chegaram à redação da Folha de Cáceres. E existe, ano após ano, uma percepção entre moradores e profissionais que acompanham o noticiário local de que setembro acaba concentrando um número maior de ocorrências.
Essa percepção, entretanto, precisa ser separada da estatística.
Não estamos afirmando que setembro tenha necessariamente mais suicídios em Cáceres. Para fazer essa afirmação com responsabilidade, seria necessário comparar os registros oficiais de vários anos, mês a mês.
Mas a coincidência dos casos justamente no mês dedicado à prevenção é suficiente para levantar uma discussão importante.
Falar sobre suicídio pode aumentar o risco?
A resposta é: dependendo de como se fala, sim.
E isso não é opinião.
A Organização Mundial da Saúde reconhece o chamado efeito Werther, ou efeito de imitação. Estudos mostram que determinados tipos de cobertura jornalística podem aumentar o risco de comportamentos imitativos, especialmente quando o caso recebe exposição excessiva, é tratado de forma sensacionalista, romantizado ou quando são divulgados detalhes sobre o método utilizado.
Ou seja, existe uma diferença enorme entre falar sobre prevenção e explorar uma morte por suicídio como conteúdo.
A OMS recomenda que os veículos de comunicação não utilizem linguagem que romantize ou normalize o suicídio, não divulguem detalhes sobre o método, não repitam excessivamente a história e não utilizem imagens ou manchetes sensacionalistas.
E aqui está um ponto que precisa ser dito especialmente em uma cidade como Cáceres.
Quando o clique vale mais do que a responsabilidade
Cáceres tem muitos veículos de comunicação.
Mas nem todos trabalham necessariamente com jornalistas formados, redações estruturadas ou profissionais preparados para lidar com temas tão delicados.
E isso pode virar um problema.
Porque, quando uma morte vira apenas clique, compartilhamento e audiência, existe o risco de transformar uma tragédia familiar em espetáculo.
Uma manchete exagerada.
Uma fotografia inadequada.
Detalhes que não precisavam ser publicados.
Repetição da mesma notícia durante dias.
Vídeos.
Comentários.
Especulações.
Tudo isso pode parecer apenas jornalismo.
Mas não é necessariamente jornalismo responsável.
A própria OMS afirma que a imprensa pode tanto fortalecer quanto enfraquecer a prevenção do suicídio. E alerta que pessoas vulneráveis podem estar mais sujeitas a comportamentos imitativos depois de exposições midiáticas extensas, proeminentes ou sensacionalistas.
Então devemos parar de falar?
Não.
E esse talvez seja o maior erro dessa discussão.
Não precisamos parar de falar sobre suicídio. Precisamos aprender a falar sobre suicídio.
A mesma Organização Mundial da Saúde que alerta para o efeito Werther também aponta que reportagens sobre superação de crises, busca por ajuda, recuperação e esperança podem ter efeito positivo e estimular comportamentos de proteção — o chamado efeito Papageno.
Portanto, o problema não é a informação.
O problema é transformar sofrimento em espetáculo.
E o Setembro Amarelo?
Talvez a pergunta mais justa não seja se o Setembro Amarelo deveria existir.
É:
o que fazemos depois que setembro termina?
Porque uma pessoa que está sofrendo não escolhe sofrer somente em setembro.
Ela pode estar sofrendo em janeiro.
Em março.
Em julho.
No Natal.
No aniversário.
Em qualquer dia do ano.
Por isso, prevenção não pode ser apenas uma campanha de 30 dias.
E a imprensa também precisa entender que noticiar suicídio exige mais responsabilidade do que simplesmente publicar uma ocorrência.
Às vezes, a melhor notícia não é contar como alguém morreu.
É explicar como alguém pode procurar ajuda antes que isso aconteça.
É mostrar que uma crise pode passar.
É mostrar histórias de pessoas que sobreviveram.
É divulgar onde buscar atendimento.
É falar com familiares.
É combater o silêncio sem transformar a morte em espetáculo.
Porque existe, sim, o risco de uma cobertura irresponsável produzir o efeito contrário.
E isso não é “lei da atração”.
É um fenômeno estudado pela ciência e reconhecido pela Organização Mundial da Saúde.
Por isso, neste Setembro Amarelo, talvez a pergunta mais importante para a imprensa seja:
estamos prevenindo ou estamos apenas produzindo conteúdo sobre tragédias?
A diferença entre uma coisa e outra pode parecer pequena.
Mas pode ser enorme para quem está do outro lado da tela.
Se você estiver passando por uma crise emocional ou pensando em suicídio, procure ajuda imediatamente. O CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
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