Uma imagem de uma visitante cadeirante enfrentando dificuldades para acessar a margem do Rio Paraguai durante o 43º Festival Internacional de Pesca (FIPe) ganhou grande repercussão nas redes sociais nesta semana.
O vídeo rapidamente foi compartilhado por páginas de humor, influenciadores e moradores, reacendendo uma discussão importante: como tornar um evento realizado em um ambiente natural cada vez mais acessível sem comprometer as características do próprio Pantanal?
Reclamação é legítima
Não há dúvidas de que pessoas com deficiência devem ter condições de participar dos eventos públicos com dignidade e segurança.
A acessibilidade é um direito garantido por lei e deve estar presente sempre que possível.
No caso do FIPe, a dificuldade encontrada por pessoas com mobilidade reduzida chamou a atenção e abriu espaço para um debate necessário sobre melhorias na estrutura oferecida ao público.
Mas existe um desafio pouco discutido
Ao mesmo tempo, frequentadores antigos do festival lembram que o principal palco do evento é justamente um ambiente natural.
A faixa de areia às margens do Rio Paraguai não é uma praia construída nem um espaço urbano.
Ela faz parte do ecossistema pantaneiro e muda completamente de acordo com o nível das águas.
Durante boa parte do ano, aquela mesma área permanece submersa.
Na época da cheia, o rio ocupa naturalmente todo aquele espaço. Meses depois, com a vazante, surge novamente a extensa faixa de areia onde acontece parte das atividades do festival.
Até onde é possível intervir?
É justamente aí que surge a pergunta que vem dividindo opiniões.
Como garantir acessibilidade até a beira do rio sem alterar um dos cenários naturais mais importantes do Pantanal?
Seria viável construir calçadas permanentes sobre uma área que fica debaixo d'água durante parte do ano?
Seria ambientalmente adequado instalar estruturas fixas em um ambiente que sofre alterações naturais todos os anos?
Ou a solução passa por alternativas temporárias, como passarelas removíveis, pisos modulares, esteiras especiais ou equipamentos adaptados para eventos?
Especialistas defendem equilíbrio
Arquitetos, engenheiros e especialistas em acessibilidade costumam defender que ambientes naturais também devem buscar inclusão, mas utilizando soluções compatíveis com suas características ambientais.
Em diversos parques nacionais, praias e áreas de preservação, por exemplo, são utilizadas passarelas ecológicas removíveis, pisos temporários e equipamentos específicos para permitir o acesso de pessoas com deficiência sem provocar impactos permanentes na natureza.
Debate vai além do FIPe
A repercussão mostra que o assunto vai muito além do festival.
De um lado, está o direito das pessoas com deficiência de usufruírem plenamente dos espaços públicos.
Do outro, está a necessidade de preservar um dos maiores patrimônios naturais do planeta.
Talvez a resposta não esteja em escolher um lado, mas em encontrar soluções inteligentes que permitam conciliar inclusão, preservação ambiental e respeito às características únicas do Pantanal.
A discussão, portanto, não deve ser sobre se a acessibilidade é importante — porque ela é um direito —, mas sobre como implementá-la de forma técnica, responsável e compatível com um ambiente natural que muda todos os anos.
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