Ivermectina volta ao debate após fala de Mel Gibson: entre rumores, ciência e a pergunta que ainda incomoda

A ivermectina voltou ao centro das discussões depois que o ator Mel Gibson afirmou, em participação no podcast de Joe Rogan, que amigos dele teriam se recuperado de câncer em estágio avançado após usar uma combinação de medicamentos antiparasitários.

A declaração viralizou e reacendeu um debate que já havia aparecido durante a pandemia: até onde vai a ciência, onde começa o boato e por que alguns medicamentos baratos geram tanta resistência quando passam a ser citados fora do uso tradicional?

Segundo estudo liderado por pesquisadores da UCLA e repercutido por veículos internacionais, as prescrições de ivermectina e outros antiparasitários aumentaram de forma expressiva entre pacientes com câncer após a fala de Mel Gibson. Entre pacientes oncológicos, o crescimento teria passado de 250% em alguns recortes analisados.

O dado não prova que o medicamento funcione contra câncer.

Mas prova uma coisa: muita gente está procurando respostas.

E quando um assunto cresce desse jeito, a resposta mais responsável não deveria ser apenas debochar, proibir o debate ou chamar todo mundo de desinformado. O correto seria estudar melhor, com método, transparência e responsabilidade.

A ivermectina é um medicamento conhecido há décadas, usado contra infecções causadas por parasitas. Está longe de ser uma substância desconhecida. Justamente por isso, pesquisadores em diferentes áreas passaram a investigar se ela poderia ter algum efeito em outras doenças, inclusive em alguns tipos de câncer.

Há estudos de laboratório e pesquisas pré-clínicas apontando possíveis efeitos da ivermectina sobre células tumorais. Também existem estudos clínicos iniciais avaliando o medicamento em combinação com imunoterapia em casos específicos, como câncer de mama triplo-negativo metastático.

Mas aqui é preciso separar as coisas.

Uma substância mostrar algum efeito em laboratório não significa que ela cure câncer em pessoas.

Entre um resultado em célula, um estudo em animal e um tratamento seguro para seres humanos existe um caminho longo, caro e rigoroso.

É esse caminho que precisa ser feito.

E é justamente aí que entra a pergunta que incomoda muita gente: diante de tantos relatos, tanta procura e tanta repercussão, por que não estudar melhor?

Não para transformar boato em tratamento.

Não para incentivar automedicação.

Não para dizer que tudo se resolve com vermífugo.

Mas para responder com ciência aquilo que hoje está sendo respondido com briga ideológica.

O câncer não é uma doença única. Existem vários tipos, estágios e comportamentos. Alguns tumores crescem rápido, outros respondem melhor a determinados tratamentos. Por isso, qualquer promessa de cura simples precisa ser vista com muito cuidado.

Hoje, os tratamentos seguros e reconhecidos contra o câncer continuam sendo aqueles avaliados por médicos e definidos conforme cada caso: cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, terapias-alvo, hormonioterapia e acompanhamento especializado.

Esses tratamentos não são perfeitos, podem ter efeitos colaterais e muitas vezes são duros para o paciente. Mas são os caminhos que passaram por estudos, testes e acompanhamento científico.

O maior risco, segundo especialistas, é que pacientes abandonem ou atrasem tratamentos comprovados para apostar em alternativas ainda não validadas. Isso pode custar tempo precioso. Em oncologia, tempo pode significar chance de controle da doença, chance de cirurgia, chance de resposta e até chance de vida.

Por outro lado, também não dá para ignorar que a medicina sempre avançou fazendo perguntas.

Muitos medicamentos usados hoje nasceram de pesquisas sobre novas aplicações para substâncias já conhecidas. Esse processo é chamado de reposicionamento de medicamentos.

A diferença é que reposicionar um remédio não é pegar um vídeo da internet e transformar em prescrição.

Reposicionar exige estudo clínico, dose segura, grupo de controle, acompanhamento de efeitos colaterais, avaliação de interação com outros medicamentos e publicação de resultados.

No caso da ivermectina, até o momento, não há comprovação suficiente para afirmar que ela trate ou cure câncer em humanos. Mas há interesse científico em investigar melhor possíveis mecanismos e combinações, inclusive com estudos em andamento ou em fase inicial.

O debate também revela outra questão: a saúde intestinal e as infecções parasitárias ainda são pouco discutidas no Brasil.

Em muitas regiões, verminoses continuam sendo um problema real, especialmente onde há falta de saneamento básico, água tratada e acompanhamento regular de saúde.

É claro que não se pode dizer que “todos os males vêm da verminose”.

Isso seria exagero.

Mas também é verdade que parasitoses podem causar anemia, fraqueza, perda de peso, dores abdominais, queda de imunidade, prejuízo no desenvolvimento infantil e piora da qualidade de vida.

Ou seja, tratar verminose quando ela existe é importante.

Mas isso é diferente de afirmar que um antiparasitário resolve câncer, doença viral, doença autoimune ou qualquer outro problema grave.

A pergunta correta talvez seja outra: por que o Brasil ainda fala tão pouco de prevenção básica, saneamento, diagnóstico precoce, alimentação, saúde intestinal e acompanhamento médico regular?

Antes de qualquer remédio virar polêmica, muita gente já adoece por falta do básico.

Por isso, a discussão sobre ivermectina precisa sair do campo da torcida.

Nem endeusar.

Nem demonizar.

O medicamento tem usos reconhecidos.

Também tem limites.

Pode ser útil para determinadas doenças parasitárias.

Mas não deve ser usado por conta própria, muito menos como substituto de tratamento oncológico.

Se há indícios que merecem estudo, que sejam estudados.

Se não funcionar, que a ciência diga com clareza.

Se algum dia funcionar em algum tipo específico de câncer, em alguma dose segura e em combinação com outro tratamento, que isso também seja demonstrado com responsabilidade.

O que não dá é para transformar desespero de paciente em mercado de promessa.

E também não dá para transformar curiosidade científica em crime de opinião.

No fim, o recado mais importante é simples: quem enfrenta câncer precisa de acompanhamento médico, diagnóstico correto e tratamento baseado em evidências.

Ao mesmo tempo, a sociedade tem o direito de cobrar que temas de grande interesse público sejam investigados com seriedade, sem preconceito, sem deboche e sem narrativa pronta.

Porque quando o assunto é saúde, nem o boato pode mandar.

Mas a arrogância também não deveria calar a pergunta.


Leia mais em www.folhadecaceres.com.br
Siga @folhadecaceres
Folha de Cáceres — a verdade doa a quem doer.



Postagem Anterior Próxima Postagem