Obra estadual em Cuiabá é importante e necessária, mas expõe contraste com Cáceres, que ainda carece de estrutura mais robusta para a causa animal enquanto o Hospital Regional volta a ser alvo de reclamações e denúncias
O Governo de Mato Grosso anunciou neste domingo (12) a conclusão das obras do Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras), em Cuiabá, apresentado pelo próprio Estado como o maior hospital veterinário exclusivo para animais silvestres das Américas.
A estrutura tem mais de 4 mil metros quadrados, recebeu investimento de aproximadamente R$ 23 milhões e terá capacidade para atender até 5 mil animais, dependendo da espécie. Os atendimentos ainda aguardam a conclusão da compra de equipamentos e mobiliário.
É uma obra importante. Mato Grosso possui uma das maiores biodiversidades do país e precisa, sim, de estrutura especializada para receber animais resgatados, apreendidos ou feridos.
O problema aparece quando o investimento estadual é colocado ao lado da realidade de Cáceres.
Enquanto o Governo consegue construir, na Capital, uma estrutura veterinária de referência continental, Cáceres continua sem receber do Estado um apoio proporcional para estruturar de maneira permanente a política voltada aos animais domésticos.
O município realiza vacinação antirrábica e outras ações por meio da Vigilância em Saúde. Em julho, por exemplo, a Prefeitura realizou nova etapa de imunização de cães e gatos em oito pontos da cidade.
Mas isso está longe de resolver toda a demanda envolvendo abandono, reprodução descontrolada, castração, atendimento veterinário e proteção animal.
E aqui está o ponto central: Cáceres não precisa que Cuiabá deixe de receber investimentos. Cáceres precisa deixar de ser esquecida quando o Governo do Estado distribui sua capacidade de investimento.
E O HOSPITAL REGIONAL?
O contraste se torna ainda mais incômodo quando se observa a saúde humana.
O Hospital Regional de Cáceres é uma unidade estadual e referência para pacientes de toda a região Oeste. O próprio Governo divulga investimentos e indicadores positivos da unidade, incluindo ampliação de profissionais, leitos e serviços.
Mas, paralelamente à propaganda oficial, continuam chegando reclamações ao Legislativo municipal e à imprensa sobre problemas enfrentados por pacientes.
Nesta semana, vereadores voltaram a levar o assunto à Câmara, inclusive com relato envolvendo uma cirurgia que teria sido interrompida depois de iniciada. A denúncia ainda precisa ser devidamente esclarecida pelas autoridades responsáveis e não deve ser tratada como fato comprovado sem apuração.
Só que ela se soma a uma sequência de cobranças antigas sobre o Regional.
Em 2025, por exemplo, a própria Câmara de Cáceres chegou a encaminhar requerimento à Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa pedindo providências sobre a situação do setor de oncologia da unidade, citando problemas no encaminhamento e tratamento de pacientes.
Ou seja, enquanto o Estado anuncia uma estrutura moderna, especializada e milionária para a fauna em Cuiabá, uma das principais unidades de saúde do Oeste continua sendo motivo recorrente de cobrança em Cáceres.
Isso não coloca saúde humana contra proteção animal.
A questão é justamente o contrário.
Um Estado que demonstra capacidade para investir R$ 23 milhões em uma estrutura veterinária de excelência também precisa demonstrar a mesma atenção quando olha para o interior.
Cáceres precisa de apoio estadual mais efetivo para a causa animal. Precisa de estrutura, programas permanentes e investimentos que não dependam apenas de ações pontuais do município ou do esforço de protetores independentes.
E o Hospital Regional, por sua vez, precisa ser tratado como aquilo que realmente é: uma unidade estratégica para toda a região Oeste, e não um problema que só ganha atenção quando alguma denúncia chega à Câmara ou às redes sociais.
O Cetras merece reconhecimento.
Mas sua inauguração também deixa uma pergunta desconfortável para o Governo de Mato Grosso:
se existem recursos e planejamento para construir uma referência das Américas em Cuiabá, por que Cáceres continua tendo de cobrar tanto pelo básico — seja na proteção animal, seja dentro do próprio Hospital Regional?
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