Efeito Pablo Marçal? Estratégia pode ter afastado eleitores e obrigado campanha a mudar de estratégia

Após um debate marcado por provocações, Flávio Bolsonaro adotou um tom mais moderado no confronto final. Aliados demonstraram preocupação com a reação dos eleitores indecisos à postura agressiva do candidato.


Na política, nem sempre o problema está naquilo que um candidato diz. Às vezes, está na maneira como escolhe dizer. E a estratégia adotada por Flávio Bolsonaro no debate da TV Bandeirantes, em 18 de outubro, pode ter produzido um efeito diferente do esperado: em vez de transmitir força, as provocações e o deboche correram o risco de passar uma imagem de falta de seriedade.


A atuação do senador chamou atenção pela semelhança com o estilo de Pablo Marçal, influenciador que participou da preparação política de Flávio e se aproximou de sua campanha. Durante o debate, o candidato do PL apostou em frases de efeito, ironias e gestos provocativos enquanto Lula falava. A estratégia gerou repercussão nas redes sociais, mas também provocou críticas. 


O problema é que uma campanha presidencial não se resume a conquistar aplausos de quem já está convencido. Existe um eleitor que observa, compara, desconfia e ainda tenta decidir em quem confiará o comando do país. Para esse público, a postura de um candidato pode pesar tanto quanto suas propostas. O que parte dos apoiadores interpreta como ousadia pode ser visto por outros como arrogância, imaturidade ou despreparo.


E não se trata apenas de uma impressão externa. Reportagens publicadas antes do último debate apontaram que integrantes da própria campanha de Flávio passaram a avaliar que o desempenho na Band havia prejudicado o candidato. Segundo relatos de aliados ouvidos pela imprensa, avaliações qualitativas com eleitores indecisos identificaram desconforto com a agressividade demonstrada pelo senador.


A reação teria levado a campanha a rever a estratégia. Pablo Marçal ficou fora da preparação para o debate da TV Globo, enquanto o marqueteiro Duda Lima e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ganharam protagonismo na orientação do candidato. A recomendação era reduzir as provocações e adotar uma apresentação mais moderada e propositiva.


No confronto de 23 de outubro, Flávio apareceu mais formal, procurou controlar o tom e dedicou mais espaço à apresentação de propostas. A mudança foi perceptível em comparação com o encontro anterior, embora o debate também tenha registrado momentos de tensão e ataques pessoais. A campanha parecia ter entendido que a imagem transmitida diante das câmeras poderia ter consequências além dos cortes que viralizam nas redes sociais.


É possível que a influência do estilo de Marçal tenha contribuído para um erro de cálculo: apostar no espetáculo quando parte do eleitorado esperava seriedade. Mas é preciso fazer uma distinção. Não há dados suficientes para afirmar quantos eleitores mudaram de voto por causa daquele debate, nem para concluir que a postura tenha determinado o resultado eleitoral. O que as reportagens indicam é que a campanha identificou riscos e decidiu mudar de rumo.


A questão é que, numa disputa tão acirrada, uma mudança de estratégia na reta final pode chegar tarde para recuperar a confiança de quem ficou incomodado. A imagem pública de um candidato é construída ao longo da campanha, e não pode ser completamente reformulada de uma hora para outra. Quando a preocupação com a postura aparece dentro da própria equipe, o sinal de alerta já está ligado.


A lição vai além de Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal. Em uma eleição presidencial, o eleitor não escolhe apenas um personagem para assistir na televisão ou nas redes sociais. Escolhe alguém para tomar decisões que afetam milhões de pessoas. Frases de efeito podem render visualizações, provocar adversários e mobilizar apoiadores, mas também podem cobrar um preço quando substituem a seriedade que parte do público espera de quem pretende governar o país.

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