MULHERES INDÍGENAS DE MT REJEITAM PESCA ESPORTIVA PREDATÓRIA E COBRAM AUTONOMIA SOBRE TERRITÓRIOS

Manifesto assinado após encontro com mais de 150 mulheres afirma que comunidades não são contra o turismo, mas querem decidir como atividades serão realizadas e evitar impactos sobre rios, peixes e aldeias

Mais de 150 mulheres indígenas de Mato Grosso se posicionaram contra o que classificam como turismo de pesca esportiva predatória dentro dos territórios indígenas e cobraram participação direta das comunidades nas decisões sobre atividades econômicas desenvolvidas nas aldeias. 

O posicionamento consta em uma carta elaborada durante a III Assembleia do ROPNI – Departamento de Mulheres do Instituto Raoni, realizada entre os dias 22 e 25 de setembro, na Aldeia Piaraçú, localizada na Terra Indígena Capoto/Jarinã, em São José do Xingu.

Participaram mulheres dos povos Mẽbêngôkre, Tapayuna, Trumai, Yudja e Panará, de diferentes terras indígenas de Mato Grosso. 

NÃO É UMA POSIÇÃO CONTRA TODO TIPO DE TURISMO

Um ponto importante do documento é que as indígenas deixam claro que não são contrárias ao turismo de forma geral.

A crítica é direcionada às iniciativas consideradas predatórias ou implantadas sem que as próprias comunidades possam definir se desejam receber a atividade e sob quais condições.

Segundo o manifesto, projetos apresentados com a promessa de geração de renda também podem trazer consequências negativas, como conflitos internos, entrada descontrolada de pessoas de fora, pressão sobre peixes e rios, consumo de bebidas alcoólicas e desrespeito às normas estabelecidas pelas aldeias. 

Para as mulheres, eventuais benefícios econômicos precisam ser conciliados com proteção ambiental, respeito à organização de cada povo e repartição justa dos resultados.

“DECISÕES SOBRE NOSSOS TERRITÓRIOS”

A discussão vai além da pesca.

O documento também demonstra preocupação com estradas, empreendimentos, projetos de infraestrutura e outras atividades capazes de produzir impactos dentro dos territórios.

As participantes defendem que a consulta às comunidades aconteça antes das decisões, com informações disponíveis previamente e tempo para que o assunto seja discutido dentro das aldeias.

“Não aceitamos que decisões sobre nossos territórios sejam tomadas sem nós”, diz um dos trechos do manifesto. 

As mulheres também reivindicam maior participação feminina nesses processos.

RENDA, MAS SEM DESTRUIR O QUE GARANTE A SOBREVIVÊNCIA

Como alternativas econômicas, o grupo cita atividades como fortalecimento das roças, produção de artesanato e costura, além da coleta e beneficiamento de produtos da floresta e iniciativas relacionadas aos conhecimentos tradicionais.

A mensagem central é que gerar renda e preservar o território não precisam ser objetivos incompatíveis, desde que as próprias comunidades participem das escolhas.

O debate também chama atenção em Mato Grosso, estado onde a pesca esportiva movimenta turismo e economia, mas depende diretamente da conservação dos rios e dos estoques pesqueiros.

No encerramento da carta, as participantes resumem a posição:

“Território protegido é vida. Mulheres unidas fortalecem nossos povos. Nosso futuro será construído com a nossa participação, nossas decisões e a nossa voz.” 


Leia mais em www.folhadecaceres.com.br
Siga @folhadecaceres
Folha de Cáceres – a verdade doa a quem doer.



Postagem Anterior Próxima Postagem