Proposta de presídio de segurança máxima na região é apresentada como estratégia contra facções, mas levanta uma pergunta: Cáceres será beneficiada ou acabará pagando a conta pela segurança de todo o Estado?
Cáceres entrou no mapa das propostas para a disputa pelo Governo de Mato Grosso — e, desta vez, por uma ideia que já começa pelo nome chamativo: “Inferno Pantaneiro”.
O termo foi escolhido pelo candidato ao Governo de Mato Grosso pelo Partido Missão, Rafaell Milas, para batizar a proposta de criação de um presídio de segurança máxima na região de Cáceres.
Segundo o candidato, a unidade teria como objetivo isolar integrantes de facções criminosas e reforçar o combate ao crime organizado. A escolha da região Oeste seria estratégica, principalmente pela localização de Cáceres e sua proximidade com rotas utilizadas pelo tráfico.
A ideia, apresentada como uma resposta dura ao avanço das organizações criminosas, pode até ter uma boa intenção.
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita:
Cáceres será realmente beneficiada por esse projeto ou estará apenas recebendo um problema que interessa ao restante do Estado?
Segurança para quem?
É evidente que ninguém é contra uma política eficiente de combate ao crime.
Cáceres, inclusive, conhece muito bem os desafios provocados pela posição estratégica da cidade e pela proximidade com a fronteira.
Mas transformar a região em sede de uma unidade prisional de segurança máxima é uma decisão que vai muito além da construção de um prédio.
É preciso discutir impactos sociais, econômicos, urbanos e, principalmente, quais serão as contrapartidas para o município e para a região.
Porque, se a justificativa é que Cáceres está estrategicamente localizada para receber presos de alta periculosidade, surge outra pergunta:
estratégica para quem?
Para o Estado?
Para o sistema penitenciário?
Para o combate às facções?
E para Cáceres, o que fica?
“Inferno Pantaneiro” ou oportunidade?
O próprio candidato reconheceu que a proposta ainda não possui todos os detalhes definidos.
Segundo a publicação sobre a entrevista, ainda não há custo estabelecido, capacidade de vagas, localização exata, cronograma de obras, modelo de gestão ou definição completa das fontes de custeio. Esses pontos dependeriam de estudos posteriores.
E é justamente aí que começa a discussão que interessa ao cacerense.
Se haverá um investimento dessa dimensão na região, quais serão os benefícios diretos?
Haverá investimentos em infraestrutura?
Melhorias nas estradas?
Reforço permanente na segurança?
Novos serviços públicos?
Geração de empregos?
Contrapartidas para o município?
Ou Cáceres simplesmente receberá uma unidade de segurança máxima porque sua localização é considerada conveniente?
Alguém perguntou ao cacerense?
Talvez essa seja a principal questão.
Uma proposta pode ser tecnicamente defensável e, ao mesmo tempo, precisar ser discutida com a população que vai conviver com ela.
Porque uma coisa é apresentar um projeto para resolver um problema estadual.
Outra é perguntar à cidade escolhida se ela quer participar dessa solução — e em quais condições.
Cáceres já convive com o peso de ser uma cidade de fronteira.
Tem suas dificuldades, suas demandas históricas e seus próprios problemas para resolver.
Por isso, antes de comemorar ou rejeitar automaticamente a proposta, talvez seja necessário fazer uma pergunta muito simples:
o cacerense quer esse “Inferno Pantaneiro”?
Ou, melhor ainda:
o cacerense merece receber esse “castigo” em nome da segurança de todo o Estado?
A resposta não deveria ser dada apenas pelo candidato.
Deveria ser discutida por quem mora aqui.
Porque Cáceres pode, sim, ser parte da solução para os problemas de Mato Grosso.
Mas também precisa saber qual será o preço e, principalmente, qual será o benefício para quem vive aqui.
Folha de Cáceres — A verdade doa a quem doer.


